O Segredo

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

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De costas horizontalmente prensadas à alvura do longo papel que cobre a marquesa. O frio metálico dos apoios morde-me desconfortavelmente a barriga das pernas. As coxas escancaradas em despudor clínico colocam-me numa vulnerabilidade ridícula. Sinto a baforada quente do clarão de luz incidido no epicentro do meu baixo-ventre. Respire fundo e relaxe. Obedeço prontamente num assentimento de criança bem comportada. Consigo ver a mini teia desafiando as leis da gravidade ao canto do tecto. Para onde terá ido a aranha. Terá migrado para outras paragens incomodada pelo ambiente antiséptico do consultório, com toda a certeza. De novo o frio metálico agora dentro de mim em forma de penetração médica, numa expedição científica em busca de causas perceptíveis e palpáveis. Tão desconfortável. Mais do que uma impressão. Menos do que uma dor. Apenas um enorme desconforto exponenciado pela sensação de me sentir indefesa. A mão impassível que investiga à procura de respostas. E um súbito calafrio subindo vértebra a vértebra até à nuca atirando-me estupradamente para reminiscências da infância secretamente guardadas. Vem cá, não tenhas medo. Não te vou fazer mal. Vês, quem é amigo, quem é, que até te trouxe um chocolate. Já sabes, só tens de ser boa menina para merecê-lo e deixar-me tocar-te aí em baixo por dentro da tua roupa como no outro dia. Pousa lá a boneca e vem cá sentar-te no meu colo. Isso. Linda menina. Vá, não digas que dói. Tu gostas. Sabes bem que sim. Estás a ver como é bom. Não podes contar a ninguém que eu te faço isto. Este é o nosso segredo… Penso estar tudo normal. Não me parece haver algum problema fisiológico que a impeça de engravidar. Vou prescrever alguns exames de rotina, apenas para ficar mais descansada e comprovar que tudo está em ordem. O facto de ainda não ter engravidado deve-se, muito provavelmente, a factores psicológicos. Ansiedade ou stress são as causas mais prováveis. Tente não colocar tanta pressão sobre si própria e de certeza que conseguirá.

É a Vida...!

terça-feira, janeiro 22, 2008

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Nunca me tinha despedido de alguém, para quem a morte chegará muito em breve. Não sei lidar com a perda das pessoas que me são queridas, quer seja pela sua morte, quer seja pelo seu afastamento voluntário ou involuntário. Nunca soube. Acho que eu própria vou morrer sem nunca aprender. Muitas vezes passo por insensível, por me afastar delas nesses momentos. Não me despedi da minha avó, nem do meu avô, nem da minha tia, nem tão pouco do meu pai adoptivo antes de falecerem. Os que morreram lúcidos, partiram a achar que eu não me importava com eles. Não é verdade. Apenas não sabia dizer-lhes o quanto iria sentir a sua falta sem irromper em lágrimas e soluços. Eles precisavam de apoio e de estabilidade que lhes garantisse uma despedida tranquila da vida. E por sentir que necessitavam de tudo, menos de alguém a soluçar, banhada em lágrimas, baba e ranho, preferi que partissem a pensar que era uma ingrata a ter que perturbar os seus últimos dias com os meus pavores e inseguranças.
Apesar disso, sábado passado enchi o peito de uma trémula coragem e fui despedir-me da minha mãe adoptiva. Depois do AVC pouco restou da mulher forte, determinada que era. Foi sempre uma mulher lindíssima, destabilizadora dos padrões de beleza mediterrânicos - olhos de um azul imenso, pele clara e estatura alta - aos quais a idade acrescentou uma aura de beleza eterna envolta em delicadas rugas e cabelos brancos. As suas feições continuam iguais, embora o seu olhar se perca no rosto dos visitantes sem achar similaridade com alguma lembrança por ventura deixada esquecida no mais remoto recanto da sua apagada memória. A cada minuto que passa, o fino fio que a prende à vida vai-se tornando cada vez mais frágil. Não creio que me tenha reconhecido. Melhor assim. Já foi difícil conter as lágrimas. Se ela estivesse consciente da sua situação terminal e de quem eu era, ser-me-ia incomportável.
Tinha 1 mês de idade quando ela e o marido, falecido há já vários anos, decidiram adoptar-me aos seus cuidados, enquanto os meus pais se ausentavam para o trabalho. Foi uma adopção de coração onde era tratada como a filha mais nova. Fui sempre considerada da família por todos, desde os familiares emigrados em França, que em Agosto traziam a um Portugal ainda adormecido na ditadura as últimas novidades do mundo moderno, até ao futuro genro que anos mais tarde se casou com a única filha deles e a quem eu, pirralha de palmo e meio, encobria o namoro de qualquer interrogatório que me fosse feito pelo progenitor. Passei mais tempo com eles, durante a minha infância, do que com os meus pais. Para onde eles fossem eu ia também, desde a simples visita ao cemitério para enfeitar as campas de flores e velar os seus mortos, até às idas para Esmoriz nas férias de Verão, onde corria na praia atrás de caranguejos e atabalhoadamente ajudava as varinas na recolha das redes de pesca.
Neste momento da minha vida, em que se somam as perdas físicas às perdas afectivas e às perdas materiais, questiono-me se haverá realmente algum propósito nessa dor que me deixa órfã daqueles que mais amo. Que crescimento interior poderá nascer de tamanha dor desproporcional? Suponho, apenas algo muito sofrido e sombrio que eficazmente disfarçarei através meu habitual e irónico humor negro. Apenas alguns, muito poucos, saberão notar que o brilho do olhar reflectirá uma luz turvada, diferente do normal. Porque um pouco de mim já partiu com ela...

Como tantas vezes ela dizia:
É a vida...!

African Sun

segunda-feira, janeiro 14, 2008

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Tarde tão tranquila. So relaxing I must say. Óptima companhia, lugar esplêndido para conversar, procurar some bargains londrinas, visitar livrarias. Simplesmente ir. No big rush, just stroll around. Deixar as palavras fluir tranquilamente com a brisa calma e solarenga de Outono. Quite unexpected for British weather, isn’t it? A serenidade que emana deste companheiro acidental de jornada sem destino pela cidade é uma autêntica bênção para os meus sentidos. Um perfeito hino à beleza masculina compactada em fortes e altos genes germânicos e exportada alguns anos atrás para o extremo sul do continente africano. I’m so glad you could come along with me. Também eu Jorg, também eu. Well, don’t get me wrong. You surely have such an amazing piece of ass, mas fico mais confortável não ter que fazer contigo o habitual jogo da sedução all the way through, you know? que uma situação destas usualmente imporia. Entendes, sabe-me bem inocentemente flirtar contigo desta forma inconsequente, apreciando a tua companhia e atenção inesperadas. Entrar nos teus olhos verde esperança e vê-los colorir dum brilho especial quando falas de África do Sul now, I could never go back to Germany again e das lindíssimas praias de areal a perder de vista pela extensa costa marítima africana, you should go and see for yourself enquanto distraidamente furas vagas de gente apátrida que varrem apressadamente os passeios londrinos em sentido contrário. To help you browsing in a bookshop for that book you’ve always wanted to read. E conseguir encontrá-lo tão facilmente como se, neste tempo todo, aguardasse apenas que os dedos das minhas mãos o revelassem ao mundo. You are my lucky charm. I’m so happy you found this book for me, that I could hug you right now. To feel you so pretty close at this point that I could almost hug you back Jorg. Sentar serenamente num coffee shop e deliciarmo-nos com a pequena extravagância dum cappuccino e dum lemon and orange muffin e ouvir-te dizer com o mesmo olhar verde de há pouco onde mulher alguma se importaria de se afogar I have a really wonderful family. I just love my wife and children. Mais uma vez, don’t get me wrong Jorg. Não me estou a atirar a ti, se exceptuarmos este lânguido flirtar que me conforta a alma, confesso, só de saber que se houvesse enough drive from both of us, estaríamos ambos in the right mood to... É por saber que existe na vida real, não ficcionada em livro, filme ou outro enredo qualquer dependente da insana vontade de escritor ou argumentista, such an amazing family, a qual faz um homem, apenas um que seja, dizê-lo de tal forma sentida irradiando felicidade por todos os poros, que me inunda repentinamente os olhos num marejar de lágrimas mal disfarçadas. Porque esse happily ever after sempre me foi negado. Nunca o senti. Nunca foi meu. Babe, make no mistake não uma família qualquer que se atura no pão nosso de cada dia, que se odeia raivosamente em silêncio entre uma garfada de puré aquecido no microondas e outra de fatia recessa de lombo sobrada do almoço de Domingo, que se martiriza sadicamente em jogos maquiavélicos de poder e submissão esperando tirar dividendos quando todos saem a perder. É a família para quem se aguarda ansiosamente a cada segundo voltar. A família que nos sossega todos os medos só de pensarmos o quão felizes somos de a termos. A família que tu tens Jorg. Essa família que me foi negada, que eu nunca tive. E é essa família que me faz querer subitamente beijar os teus lábios Jorg, esperando que me passes através deles essa happily fulfilled family sensação, como sopro de vida que se agarra aos meus e me resgata deste desértico purgatório de amor não suficiente, de amor sofrido, de amor cansado. Que me possa transportar ainda que por breves momentos até África e me aquecer no sol quente de Durban, numa casa grávida de luz e de risos felizes de crianças, onde flutua ainda no ar o odor fresco a sémen. Breves instantes apenas. Afinal seria tão fácil, Jorg to kiss your awesome lips... deixar-me levar I really enjoyed spending this afternoon with you pelo fino fio de esperança you were such a wonderful company preso a esses olhos verdes...

Portugal à Distancia

quinta-feira, janeiro 10, 2008

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Heimtextil Messe - Frankfurt
10.01.2008

Pavilhoes a fervilhar de gente. Cores, cores e mais cores. Este ano tudo me parece igual. Desde o homem de bigode, baixinho e gordo que aguarda pacientemente a vinda dos clientes, até aos produtos expostos. Nada se destaca. Nem um único artigo que ainda nao tenha sido visto, nenhuma tonalidade que ainda nao tenha sido experimentada. Ninguém quer arriscar. Sinais da crise que assola um pouco por todo o lado. Até os indianos e os chineses estao comedidos este ano. Longe vao os tempos das compras de artigos por impulso momentaneo.
Aproveito uma pausa para ver e-mails (a internet é disponibilizada gratuitamente aos visitantes da feira - estou de facto numa outra galáxia). Ainda sobra algum tempo. Actualizo a leitura dos blogues que mais gosto. Fico a saber que Arya (http://arya-journal3.blogspot.com) decidiu, infelizmente, encerrar o seu blogue. É um dos meus favoritos. Vou sentir falta! A Yashmeen (http://entredoismundos.wordpress.com/2008/01/08/esclarecimento) anda às voltas com a tacanhez portuguesa (pela minha parte confesso, nao fosse pelo meu filho e arranjaria forma de nao regressar a Portugal no proximo sabado e nao quero saber que me chamem apátrida). O blogue Abrotea (http://abrotea.blogspot.com), da Patrícia, é o seguinte. Grande murro no estomago com direito a "knock-down" e tudo (se o meu filho estivesse aqui já me tinha explicado direitinho que hoje nao se diz "knock-down", mas sim "smack-down" - coisas do wrestling!). O seu último post é tudo quanto desejava expressar e ainda nao tinha tido tempo de digerir para colocar em palavras. É duma beleza, simplicidade e clareza indiscritível. Nada fica por dizer. Está tudo lá. É a alma exposta até à essencia sem a proteccao dum único fino véu. Há textos que tem esta particularidade, de nos abanar do torpor e de evidenciar a realidade sem anestesia. A Patrícia tem esse dom. Sou fa dos seus posts. Ela teve a gentileza de me deixar reproduzi-lo no meu blogue, no entanto, aconselho a todos uma leitura atenta a tudo quanto ela escreve.
Da Alemanha, com amor
Lilith

"Ilusoes carnais
Encontro-me com o meu ser. Desacordada nesta cama. Foste mais do que memória nos corpos de outros. Nao eras tu. Nao era ninguém. Ninguém que me ficasse na memória. Só tu. Quem eu procurei noutros sorrisos, noutros seres. Fiquei, sorri. Entreguei-me aos prazeres da carne. Fingi que te tinha. Mas nao tinha. Nao eras tu. Nem sequer uma imitacao de ti. Mas fechei os olhos e vi-te. Talvez até te tenha sentido. Em muitas alturas, estiveste comigo. Até ao despertar. Até voltar a olhar o escuro. Este escuro em que a minha alma se tornou. É quando esta luz sombria me envolve, que a solidao me dói mais. Porque percebo que me enganei de novo. Que me afundei mais ainda nesta escuridao. Nao eras tu. Nunca mais serás tu, aqui ao meu lado, no meu corpo. Apenas permaneces em mim, em memória que teima em nao desaparecer. E eu, que te tenho aqui, percebo que a cada imitacao tua que encontro me sinto mais só, mais longe de te ter. A ilusao dos corpos. O pesadelo logo a seguir. Agora, apenas quero deixar-me dormir. Deixar o meu corpo repousar deste sexo fingido que nao me cala a dor. Deixar-me dormir e quem sabe, sonhar contigo. Uma vez mais"

(in "O corpo dos outros" - abrotea http://abrotea.blogspot.com)

P.S. - desculpem este post nao ter a acentuacao correcta - o teclado nao permite - tambem estou impossibilitada de colocar os links que habitualmente o blogspot permite para redireccionamento de página, daí ter escrito no post os enderecos dos blogues mencionados.

Reposição da Verdade - Até Amanhã

domingo, dezembro 30, 2007

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Facultaram-me anonimamente acesso ao endereço dum livro de visitas onde o meu post ATÉ AMANHÃ tinha sido descaradamente reproduzido sem permissão por uma "floraapaixonada", a qual, por omissão, também se havia apropriado da sua autoria.

Passo a transcrever a mensagem que deixei no livro de visitas da dita senhora:


Minha Cara floraapaixonada,

Devo dizer que nada na vida nos acontece por acaso e o facto de me terem facultado a página do netlog do seu amigo AM220606 não foi, com toda a certeza, uma mera coincidência!
Constatei que é fã do meu post "Até Amanhã", o qual publiquei em 28 de Agosto de 2006 no meu blog http://asfasesdalua-lilith.blogspot.com.
No entanto, Cara floraapaixonada, esse post tem, como qualquer outra criação literária, direitos de autor, os quais a Sra. parece ter esquecido (propositadamente ou não) quando "dedicou" o MEU TEXTO ao seu amigo acima indicado, não fazendo qualquer menção à sua real e legítima autora, nem à página da internet de onde este foi ROUBADO.
Caso não esteja informada sobre o acto ílicito e criminal que cometeu, por favor informe-se. Para lhe facilitar a vida, até lhe posso indicar o site da "Wikipédia" onde, numa forma sucinta, poderá obter informação sobre o assunto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Copyrights. É que, Cara floraapaixonada, a internet não serve tão somente para fazermos "copy / paste" de textos que nos são alheios, serve também para estarmos informados e aprendermos qualquer coisa de útil, nomeadamente apreciar e respeitar a criatividade artística dos outros!
No referido artigo vai poder ler o seguinte:
"Contrafacção é a cópia não autorizada de uma obra, total ou parcial. Toda a reprodução é uma cópia, e cópia sem autorização do titular dos direitos autorais e ou detentor dos direitos de reprodução ou fora das estipulações legais constitui contrafacção, um acto ilícito civil e criminal.
Cabe ao autor o direito exclusivo de utilizar, fluir e dispor da obra literária, artística ou científica, dependendo de autorização prévia e expressa do mesmo, para que a obra seja utilizada, por quaisquer modalidades, dentre elas a reprodução parcial ou integral.
(...)
Em Portugal, essa matéria é regulada pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos e pelo Decretos-Lei seguintes desde que não contrariem o disposto neste Código permanecem em vigor tais como: Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março, com as alterações feitas pela Lei n.º 45/85, de 17 de Setembro, pela Lei n.º 114/91, de 3 de Setembro, pelo Decreto-Lei n.º 332/97, de 27 de Novembro, e pelo Decreto-Lei n.º 334/97, de 27 de Novembro."
Como pode verificar, ao citar parte do artigo publicado na Wikipédia, coloquei o conteúdo entre aspas e disponibilizei informação de onde este foi retirado. Assim, estou a respeitar o trabalho e os conhecimentos de quem colocou essa informação à disposição de todos que navegam na internet, sem me apropriar indevidamente da sua autoria!
Assim, como forma de repor a legalidade dos factos, exijo que proceda uma das seguintes formas:
1. ou faz uma rectificação à sua mensagem e menciona o pseudónimo da autora e a página da internet de onde foi retirado o MEU TEXTO "Até Amanhã" no livro de visitas do seu amigo AM220606;
2. ou pura e simplesmente retira o MEU TEXTO do livro de visitas do seu amigo.
Caso assim não proceda, ver-me-ei forçada a apresentar queixa-crime contra si nas instâncias competentes.
Da próxima vez que se sentir tentada a copiar algo que não é seu, experimente em 1º lugar pedir autorização ao respectivo autor. Não custa nada e faz parte das regras da boa educação, além de evitar as consequentes complicações legais / jurídicas que possam advir desse incumprimento.
Atentamente,

Lilith

Este Amor

quarta-feira, dezembro 26, 2007

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Este Amor
(... my precious one)
Foi suave poema
Sussurrado ao ouvido,
Sustenido no tempo
Em doce Vibrato.

Este Amor
(... my vicious one)
Foi força indomada,
Fecundada paixão.
A tua seiva
No meu corpo

Este Amor
(... my treasured one)
Foi apaziguado sabor
Da batalha ganha,
Na morosa guerra
Há muito perdida.

Este Amor
(... my strongest one)
Foi pura essência
Da minha nua Alma
Presa à tua

Este Amor
(... to Thee I surrender)
Foi todo teu...

O Estado da Nação

sábado, dezembro 01, 2007

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Vivem há mais de 25 anos porta com porta com os meus pais. Óptimos vizinhos, excelentes pais da filha única, a qual vimos crescer desde tenra idade. Sacrificaram-se para que pudesse ter um curso superior e chegar mais longe do que eles. Pessoas honestas, trabalhadoras, sempre prontas a ajudar em tudo que seja necessário e, acima de tudo, compenetradas na sua vida e pouco dadas a mexericos. Ela, saía de casa todos os dias pelas 7,30 h da manhã para entrar na fábrica de confecções às 8 h, voltando já tarde. Ele, trabalhando por turnos, muitas das vezes regressava a casa pouco depois de ela ter saído. Está desempregado há já 2 anos. Ela ficou sem trabalho o mês passado. Estão ambos na casa dos 50 e poucos. Atarantados pela incerteza do dia seguinte, não assimilaram ainda como tamanha injustiça lhes coube em sorte. Ela não consegue esconder os olhos rasos de água nem o terror interno que lhe preenche o olhar. Nunca se viu em tal situação. Sabe que dificilmente conseguirá um novo emprego. Ele, porque é homem, e aos homens não é permitido chorar quando tudo desaba à frente deles, desvia os olhos para o infinito e morde o filtro do cigarro. Dói-me não poder fazer nada por eles, a não ser rever-me no seu desespero. Perder o trabalho, o sustento de uma família, é perder a dignidade. É perder as rédeas da vida. É depender de estranhos. E desenganem-se aqueles que pensam isso apenas acontece às pessoas com baixos níveis de instrução. Tenho amigos com cursos superiores, mestrados, doutoramentos que trabalham em empregos precários cujas remunerações pouco maiores são que o ordenado mínimo nacional e que preferem isso a sentir que perderam a dignidade. Ou aqueles que nem isso conseguem, porque “possuem qualificações a mais para o lugar” (???). Ou, pior ainda, muito frequente nesta sociedade actual de “iluminados”, aqueles que já não têm 35 anos e por isso “passaram o prazo de validade” como os iogurtes ou outro mantimento perecível. Imensos empresários de pequenas empresas, nos quais eu me incluo, que caminham permanentemente na estreita linha entre a sobrevivência do negócio e o abismo da falência, obrigando-os a medidas autofágicas como última solução de recurso, mas que mesmo assim não dão garantias de rigorosamente nada. Por isso, só me dá vontade de rir de raiva quando o governo nos quer fazer crer que estamos a sair da crise. Dá-me vontade de rir de raiva, quando alguém com responsabilidades governativas afirma que o sector empresarial do norte tem de reagir e não esperar que as coisas lhes caiam no colo, como se alguma vez o empresário nortenho não soubesse que apenas pode contar com ele para o que der e vier, porque a capital e o poder governativo deste país sempre sofreram de miopia extrema e não conseguem ver mais além do que o seu próprio umbigo. Dá-me vontade de rir de raiva escutar isso de alguém que vive entre os gabinetes do poder político muitas das vezes sem qualquer tipo de experiência empresarial ou de trabalho efectivo em empresas reais com problemas reais. Dá-me vontade de rir de raiva, quando por um simples movimento de secretaria se transforma alguém com a 4ª classe num adulto com o 12º ano, sem que para isso tenha de aprender algo de relevante que lhe transmita reais conhecimentos a esse nível, apenas porque ao governo interessa camuflar as estatísticas que colocam este país com um índice de iliteracia elevadíssimo e com um dos mais baixos níveis de escolaridade, esquecendo que isso só pode ser combatido com reais conhecimentos e não com emissão de diplomas. Dá-me vontade de rir de raiva quando ouço pretensos “yuppies” (o que eu apelido de “yuppies” à portuguesa) falar em downsizing e key account e marketing development e outras pérolas do género (quem puder, leia a coluna de opinião do jornalista Joel Neto na revista NS da semana passada) como se as palavras ditas em inglês americanizado lhes conferisse um estatuto acima dos “comuns e reles mortais”. Dá-me vontade rir de raiva quando alguém tem a ideia peregrina de escrever que o salário médio dos portugueses ronda os 840,00 € (a Yasmeen dedica um post a este tema, o qual aconselho vivamente a ler). Neste caso dá vontade de perguntar se há outro Portugal que eu não conheço, mas para o qual pretendo mudar-me já amanhã (é só o tempinho de fazer as malinhas e partir...), ou se a pessoa que escreveu esta pérola (supostamente) jornalística conhece o país em que supostamente habita, onde há locais que não existe electricidade, nem água canalizada, nem rede de esgotos, nem estradas dignas desse nome, onde crianças têm de andar horas de camioneta para continuar a estudar, onde mães põem em risco a sua vida e a dos seus filhos dando à luz em ambulâncias estacionadas na berma da estrada, onde pessoas com doenças em fase terminal são obrigadas a trabalhar porque o Estado não lhes reconhece a dignidade de morrerem em paz, onde as pessoas caminham na rua de semblantes carregados porque ninguém hoje em dia tem motivos para sorrir, onde o salário real da maioria anda muitíssimo abaixo dos tais € 840,00! Muito honestamente, dói-me ser portuguesa neste Portugal tão tacanho!